Pequeno tratado sobre o que as mulheres querem

5 min March 8, 2022
Educação

Por Marina Pechlivanis* 

 

Respeito, poder, direitos, espaço, reconhecimento, visibilidade, equidade, autonomia, acesso, voz, vez… O que as mulheres de hoje querem? Difícil chegar em um consenso, considerando que as pessoas percebem as coisas diferentemente e possuem expectativas e intenções distintas também. Uma boa aposta é que queremos viver bem e queremos ter uma vida bem-sucedida. Mas o que é que isso significa? 

Luc Ferry encerra a obra O que é uma vida bem-sucedida? (2002) com uma possível resposta: uma vida de grandeza, um brilho nos olhos, uma frágil felicidade. Edgar Morin critica a noção contemporânea de bem-estar muito associada à aquisição material, conclamando a uma mudança de noção, não de bem-estar, mas de bem viver. Já para o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, não há uma forma só de ser feliz e, considerando que a arte da vida é moldada não só pelo destino (está dado), mas também pelo caráter (você pode controlar), há sempre uma gama de opções para escolher. Felicidade é criar seu próprio estilo de vida, como defendeu Sócrates. 

Criar seu próprio estilo de vida é ter liberdade. É isso que as mulheres querem? E será que somos livres para isso, sendo que estamos interligados por complexas redes de comunicação verbal e não verbal transnacionais, por rituais incessantes de dar, receber, ressignificar e contribuir, por uma imensa cadeia produtiva que oferece, de um lado, a segurança da sobrevivência; de outro, uma liberdade de escolha planejada pelo consumo? Queremos o mundo, mas para fazer parte das tribos que a extensa aldeia global abarca, no mundo real e no mundo virtual, com seus gostos e afinidades, precisamos consumir. Vivemos de consumir. Consumimos para nós e para os outros o tempo todo. São objetos, acessórios, utilitários, inutilidades e necessidades básicas. São ideias, ideais, conceitos, histórias e memórias. São vínculos, acessos, sucessos e pertencimentos. No fundo, estamos adquirindo uma certa qualidade de vida, peculiarmente nossa, em um universo de tantas opções produzidas em série.  

 

Sim, queremos viver bem. Queremos uma vida bem-sucedida.  

 

            E as possibilidades estão postas: as modas, as vitrines, os reality shows, as campanhas publicitárias, as ações promocionais, as redes sociais, as dietas da vez, os produtos de beleza e de limpeza, os SPAs e os retiros espirituais, as notícias e trendind topics nos sinalizam o que pode nos ajudar a adquirir uma identidade de felicidade em um ininterrupto novo mundo de tantos possíveis pertencimentos. Por isso precisamos das ofertas, dos descontos, dos parcelamentos para criar nosso próprio lifestyle — vale para vegans, hippies, cults, noveau riches, pattys, indies, cools… Precisamos também de ideologias de “qualidade de vida”, “saudabilidade”, “proteção ambiental”, “respeito pelas diferenças”, “harmonia entre os povos”, entre tantos outros discursos que mantêm unidas as imagens e a coerência das múltiplas crenças comuns, nas mais diversas comunidades. Precisamos de produtos e símbolos; de QR Codes; de cupons e de ingressos; de perfis nas redes sociais; da impressão de pertencer a uma categoria universal: mulheres, com nossas rotinas e vidas, com formas plurais de relação social, de participação e de cidadania. Somos livres para criar o nosso próprio estilo de vida, mas a nossa liberdade é planejada. As cartas mercadológicas estão marcadas: damos e recebemos não apenas o que queremos, mas o que está disponível, física e ideologicamente, para ser compartilhado. 

Que mundo é esse que queremos para nós e para as pessoas a quem queremos bem? Que tipo de trocas queremos que a economia, a política, a sociedade estabeleçam conosco, e que tipo de trocas estamos dispostas a efetivar com o próximo? Em uma sociedade com tantos ranços históricos (preconceito, discriminação, intolerância, violência, desrespeito…)  e tantas carências latentes (afetivas, financeiras, nutricionais, intelectuais, psíquicas…), é tempo de rever a lista de desejos e reimaginar a mercadologia, a antropologia, a sociologia, a psicologia, a democracia, a filosofia, a pedagogia com o melhor do feminino, do masculino, do tudo junto misturado. Nosso tratado de exigências precisa pressupor as coexistências gentis, generosas, solidárias, sustentáveis, diversas, respeitosas e cidadãs, e as mulheres têm, no útero, esta dádiva para dar à luz. 

 

Sim, queremos viver bem. Queremos uma vida bem-sucedida.  

E quem não quer? 

 


*Sócia-fundadora da Umbigo do Mundo, especializada em posicionamento de marca e cultura corporativa. Mestra em Comunicação e Práticas de Consumo pela ESPM. Professora de Pós-Graduação em Marketing Holístico da BSP, em Economia do Conhecimento e Inovação na Belas Artes e em Relações com Clientes na ESPM, além de professora voluntária na Escola Aberta do Terceiro Setor. Autora dos livros “Gestão de Encantamento 1 e 2 (2018 e 2019), “Economia das Dádivas: o novo milagre econômico” (2016) e “Gifting” (2009), entre outros 20 títulos. Atua em projetos para ONGs, associações e instituições do Terceiro Setor. Idealizadora da plataforma Educação para a Gentileza e a Generosidade  https://www.gentilezagenerosidade.org.br/. 

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